“De súbito, porém, ondula um frêmito sulcando, num estremeção repentino, aqueles centenares de dorsos luzidios. Há uma parada instantânea. Entrebatem-se, enredam-se,trançam-se e alteiam-se fisgando vivamente o espaço, e inclinam-se, embaralham-se milhares ele chifres. Vibra uma trepidação no solo; e a boiada estoura. . .

A boiada arranca.

Nada explica, às vezes, o acontecimento, aliás vulgar, que é o desespero dos campeiros.

Origina o incidente mais trivial — o súbito vôo rasteiro de uma araquã ou a corrida de um mocó esquivo. Uma rês se espanta e o contágio, uma descarga nervosa subitânea, transfunde o espanto sobre o rebanho inteiro. É um solavanco único, assombroso, atirando, de pancada, por diante, revoltos, misturando-os embolados, em vertiginosos disparos, aqueles maciços corpos tão normalmente tardos e morosos.

E lá se vão: não há mais contê-los ou alcançá-los. Acamam-se as caatingas, árvores dobradas, partidas, estalando em lascas e gravetos; desbordam de repente as baixadas num marulho de chifres; estrepitam, britando e esfarelando as pedras, torrentes de cascos pelos tombadores; rola surdamente pelos tabuleiros ruído soturno e longo de trovão longínquo…

Destroem-se em minutos, feito montes de leivas, antigas roças penosamente cultivadas; extinguem-se, em lameiros revolvidos, as ipueiras rasas; abatem-se, apisoados, os pousos; ou esvaziam-se, deixando-os os habitantes espavoridos, fugindo para os lados, evitando o rumo retilíneo em que se despenha a “arribada” — milhares de corpos que são um corpo único, monstruoso, informe, indescritível, de animal fantástico, precipitado na carreira doida. E sobre este tumulto, arrodeando-o, ou arremessando-se impetuoso na esteira de destroços, que deixa após si aquela avalancha viva, largado numa disparada estupenda sobre barrancas, e valos, e cerros, e galhadas — enristado o ferrão, rédeas soltas, soltos os estribos, estirado sobre o lombilho, preso às crinas do cavalo — o vaqueiro !

Já se lhe tem associado, em caminho, os companheiros, que escutaram, de longe, o estouro da boiada. Renova-se a lida: novos esforços, novos arremessos, novas façanhas, novos riscos e novos perigos a despender, a atravessar e a vencer, até que o boiadão, não já pelo trabalho dos que o encalçam e rebatem pelos flancos senão pelo cansaço, a pouco e pouco afrouxe e estaque, inteiramente abombado.”

(Texto extraído do romance Os Sertões, de Euclides da Cunha)

Esse clássico da literatura brasileira, retrata de forma metafórica o que se observa ultimamente no mercado mundial. Uma crise gerada no mercado financeiro levando num efeito dominó as atividades industriais e comerciais a uma corrida desenfreada. Mesmo sem saber o motivo que levou a rês a lançar-se em desvairada carreira, as outras rezes a seguem correndo de forma desenfreada, destruindo tudo que encontram pela frente. Dessa forma, o mercado, que anteriormente caminhava em plena expansão, vê-se repentinamente mudando o rumo, passando a “enxugar” custos, com uma avassaladora quantidade de profissionais demitidos. Algumas empresas, é bem verdade, sofrem diretamente o resultado de má administração em seus negócios. Outras, porém, passam a agir de forma retraída, como uma equipe de futebol que vinha se lançando ao ataque, fazendo gols, mas mudam a forma de atuar em campo, retraindo seus jogadores. E com isso abrem espaço para o avanço da equipe adversária.

Quem souber aproveitar as oportunidades que surgem nesse momento de “estouro de boiada”, vai colher os dividendos. Como no texto, a corrida será vencida por aqueles que foram de encontro às rezes, com “novos esforços, novas façanhas, novos riscos”. A boiada será domada e voltará à sua caminhada tranqüila, conduzida por vaqueiros, bravos sertanejos, acostumados à luta diária sob condições adversas, um forte, como diz Euclides da Cunha.

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